Saúde dos peixes é sensível à diversidade de agentes externos no Guaíba

“A degradação ambiental no Guaíba pode ocorrer por diversos motivos. Mas não temos nenhuma análise que determine exatamente quais os poluentes que geram anomalias nos peixes”, explica professor de pós-Graduação em Biologia Animal do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Ufrgs, Luiz Malabarba. Segundo o especialista, não há como prever quais serão os impactos da extração de areia na região do Guaíba elegível pela proposta de zoneamento ambiental apresentada recentemente pela Fepam, sem que antes ocorra um profundo monitoramento biológico e de qualidade ambiental desta parte da bacia hidrográfica.

Entre 2002 e 2010, Malabarba orientou uma série de estudos vinculados aos trabalhos de mestrado e doutorado do biólogo Fábio Flores Lopes, envolvendo a saúde de populações de peixes presentes no manancial, com base na Resolução 1/86 do Conama. Este expediente determina que “impacto ambiental é definido como qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente afetem a saúde, a segurança e o bem estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias e a qualidade ambiental.”

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Neoplasias observadas próximo a cabeça e no pedúnculo cadual de Rineloricariastrigilata

O fato de existirem poucos estudos realizados com peixes para verificar a integridade biótica do ambiente no Guaíba levanta uma série de dúvidas quanto à influência da diversidade de agentes externos sobre a saúde da fauna do Lago. Em uma das pesquisas, realizada na primeira década dos anos 2000, a forma do Lago e a falta de informações sobre os padrões de circulação de água dentro deste sistema já impediam afirmar com precisão se esta anomalia tinha relação com as principais fontes de poluição do manancial (descarga de rejeitos domésticos e industriais).

Muitas situações podem alterar o ambiente, o ciclo de vida e a saúde dos peixes, desde excesso de matéria orgânica na água (que chega por esgoto), passando por mudanças de PH ou de temperatura, parasitas, até a presença de agrotóxicos e outros produtos químicos, informa Malabarba. Ele explica que em países como o Brasil, onde estudos ambientais são ainda incipientes, as informações disponíveis sobre efeitos de poluentes em espécies de peixes são ainda mais escassas.

O professor do Instituto de Biociências da Ufrgs destaca ainda que há uma extensa literatura sobre patologias de peixes causadas por vários poluentes, mas poucas informações estão disponíveis sobre os efeitos de substâncias tóxicas no ambiente. Em uma das pesquisas publicada em 2004, após dois anos de amostragens, onde foram utilizados índices ecológicos no monitoramento da bacia hidrográfica do Guaíba, Lopes e Malabarba destacam que em outros estudos de monitoramento ambiental já desenvolvidos naquele ambiente quase todos autores observaram elevadas incidências de anomalias morfológicas em peixes. “Os maiores índices de casos estavam relacionados com as áreas que apresentaram graus mais elevados de poluição”, detalha o docente da Ufrgs.

Na pesquisa de Lopes, os biólogos constataram a presença de alterações nas brânquias de duas espécies de lambaris (Astyanax fasciatus e Cyanocharax alburnos); além de oxigênio dissolvido e coliformes fecais em diversos pontos do Guaíba. Para Malabarba, no entanto, os índices não são as melhores ferramentas a serem utilizadas em programas de monitoramento ambiental. Segundo o pesquisador, mudanças na química da água podem ser letais para peixes ou deixá-los vulneráveis a doenças. Entre os efeitos ou danos causados por poluentes em peixes, incluem-se mutações genéticas, doenças, mudanças no comportamento, disfunções físicas (incluindo disfunções na reprodução), deformações físicas ou displasias, morte e câncer.

Procurado por uma equipe da Fepam durante o período de elaboração da proposta de zoneamento ambiental apresentada em maio deste ano, o especialista exigiu restrições na área de ligação entre o Lago Guaíba e a Laguna dos Patos, por se tratar de local de passagem de espécies migradoras, além da região do Delta do Jacuí, onde ocorre reprodução e crescimento de peixes. Malabarba também apontou a necessidade de utilização de metodologias diferentes de monitoramento na área considerada passível de ser explorada pela mineração. “É fundamental se obter uma avaliação mais acurada sobre os efeitos antropogênicos que estão atuando nos locais demandados”, afirma o especialista. Ele destaca que “é o órgão ambiental responsável quem deve decidir em caso de comprovados efeitos nocivos, mas opina que dependendo do tipo de impacto gerado no futuro, o ideal será regular ou cancelar a atividade de extração de areia.”

De acordo com o professor, ainda que o Departamento de Zoologia da Ufrgs realize monitoramento constante no Guaíba, há mais de 20 anos não é feito um trabalho mais extenso para avaliar a saúde das cerca de 90 espécies presentes no Lago (sendo as mais frequentes, 30 espécies de lambaris). Dentre as anomalias mais frequentes que os pesquisadores detectam estão as torções de raios de nadadeiras dos indivíduos analisados. “A maioria sobrevive, mas este é um indicativo de que tem problemas no ambiente”, garante o especialista. Ele avalia que o diagnóstico da integridade e a quantificação do grau de deterioração, juntamente com suas consequências sobre o ecossistema, tem sido um desafio permanente para os estudiosos da área ambiental.

Conforme o pesquisador, a ocorrência de neoplasias com um padrão idêntico em placas ósseas de diversos indivíduos de peixe-cascudo é uma evidência da presença de poluentes e/ou habitats degradados no lago Guaíba. “O rio Gravataí, por exemplo, é um trecho bem poluído, onde a condição ambiental dentro dos índices do Conama é a pior, e a saúde da população de peixes indica que este é um ponto crítico.”

Artigo sobre alterações histológicas em placas ósseas do peixe-cascudo e sua frequência no Labo Guaíba afirma que .... a análise histológica das neoplasias demonstrou uma alteração na configuração normal dos tecidos nos locais afetados.. observou-se uma hipoplasia do tecido epitelial, ou seja, um aumento no número de células e de camadas de células. Também houve acentuado aumento no número de células secretoras e células sanguíneas inseridas no tecido epitelial (Fig. 4 B-O). As células secretoras que se localizam logo acima do estrato germinativo, mostraram-se maiores e com Figs 3-4. (3) Placas ósseas do cascudo Rineloricaria slrigi/ata: (A) organização normal dos odontodes; (8) detalhe dos odontodes desordenados no tecido com neoplasia; (C) visualização de duas placas contíguas, uma com neoplasia (acima a esquerda) e outra normal (abaixo a direita); (D) placa ósseas com neoplasia. (4) Cortes histológicos em placas ósseas: (A-8) placas normais; (C-D) placas ósseas com neoplasias. (ep) Epiderme, (cs) células secretoras de muco, (mel) camada de melanina, (tcf) tecido conjuntivo frouxo, (po) placas ósseas, (me) tecido muscular estriado esquelético, (od) odontodes.”
Artigo sobre alterações histológicas em placas ósseas do peixe-cascudo e sua frequência no Lago Guaíba afirma que ….
Artigo sobre alterações histológicas em placas ósseas do peixe-cascudo e sua frequência no Labo Guaíba
Artigo sobre alterações histológicas em placas ósseas do peixe-cascudo e sua frequência no Lago Guaíba

Malabarba destaca que a observação direta da saúde dos organismos aquáticos é um dos recursos, porque permite a detecção de efeitos nocivos sobre o ambiente e organismos aquáticos não encontrados em monitoramento químico tradicional. “As limitações, deste último, residem na falta de informações sobre toxicidade de alguns elementos ou compostos químicos, na falta de informações sobre efeitos sinérgicos, aditivos ou antagônicos ocasionados pela combinação das substâncias tóxicas existentes ou reações com o meio químico, ou no fato de existirem algumas centenas de substâncias potencialmente tóxicas cuja análise nem sempre é disponível ou economicamente viável.”

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