Descaso com o Guaíba preocupa especialista

Para ser eficaz, o planejamento urbano deve contemplar a todos, defende professor Rualdo Menegat
FREDY VIEIRA/JC

De acordo com o Estatuto da Cidade, a revisão do planejamento urbano de cidades com mais de 20 mil habitantes deve ser feita a cada 10 anos. Em Porto Alegre, a última revisão do Plano Diretor foi votada em 2009. Os debates para a nova avaliação da lei estão sendo organizados desde o ano passado. A revisão dos planos diretores é tema de seminário que se encerra hoje no Ministério Público em Porto Alegre.

Um dos palestrantes, o professor Rualdo Menegat, chefe do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da Ufrgs, apresentou um paralelo entre o conceito de cidade integrada e sustentabilidade. Após a palestra, ele falou com o Jornal do Comércio sobre o que define como “cegueira” no meio urbano – que em Porto Alegre seria simbolizada pelo Guaíba – e defende que a revisão do Plano Diretor seja precedida de uma “educação para o local”.

Jornal do Comércio – O senhor diz que toda cidade tem alguma cegueira. O que significa esse conceito?

Rualdo Menegat – As cidades desenvolvem uma cegueira porque vivemos armadilhados dentro dela. Todos os dias estamos cheios de afazeres, e poucas vezes observamos os impactos que a cidade produz no meio ambiente e em nós mesmos. Com isso as cidades vão desenvolvendo pontos cegos, vão se habituando a um procedimento que acaba danificando as bases que a sustentam. No caso de Porto Alegre é o Guaíba. Nos acostumamos a jogar tudo lá, como se fosse um mar sem fim capaz de acumular. Mas, na verdade, ele armazena e esse processo chegou a um ponto de enorme deterioração dos ecossistemas de borda. E a cidade, ao invés de se dar conta disso, dia a dia vai agravando. O problema é que o Guaíba é o único manancial que abastece Porto Alegre. Caso aconteça um acidente grave, como o derrame de uma carga perigosa de um navio, teremos um enorme comprometimento do abastecimento de água, levando a problemas da vida urbana muito difíceis de serem contornados. No caso de Porto Alegre, seria perder o Guaíba.

JC – Há discursos de preservação do Guaíba, mas não se vê uma mudança de postura…

Menegat – Vivemos em uma sociedade de muita informação, mas temos problemas de gestão social. A sociedade porto-alegrense tem que eleger o que é vital. A água que bebemos, por exemplo, é vital. Isso estabelece estratégias e daí decorrem políticas públicas importantes para o futuro. A abdicação dessas políticas públicas fará com que a água das cidades seja um bem exclusivamente pago e muito caro, levando a um processo de exclusão de milhões de pessoas, e o mais brutal, excluir as populações do acesso à água. Essa é a eleição que fazemos quando desconsideramos o Guaíba, porque alguns poderão comprar água e outros não. O problema de não termos planos consistentes de controle ambiental é que pode haver algum tipo de colapso. O Guaíba é o nosso destino: o que acontecer a ele, acontecerá a nós.

JC – Estamos na iminência da revisão do Plano Diretor de Porto Alegre. Como realizar um trabalho consistente? O senhor falava na educação como um caminho…

Menegat – Precisamos desde cedo educar a reconhecerem o espaço onde vivem. A escola deve ser um centro de saberes locais, capaz de levar o aluno e a comunidade a entender cada vez mais o lugar que habitam e a se identificar com ele. Com isso, teremos, no futuro, pessoas mais aptas a fazer a gestão urbana, social, ambiental. Se os cidadãos não são preparados para isso, há um risco enorme dos planejamentos caírem no vazio, porque o planejamento urbano ou é de todos ou vai ter ineficácias. Um processo permanente de educação com base no lugar é um caminho a seguir. Isso construirá a cultura da gestão urbana para todos. A cidade não é só de alguns, pertence a todos.

Fonte: Jornal do Comércio