Crise diminui demanda de areia no mercado gaúcho

Com queda de 60% das vendas, possibilidade de faltar matéria-prima para construção civil está cada vez mais remota

Será necessário outro argumento por parte de mineradores que têm pressionado para que seja retomada a extração de areia no Lago Guaíba, suspensa desde 2003. Pelo menos enquanto durar a crise econômica no Brasil e no Rio Grande do Sul. O principal insumo usado na construção civil tem permanecido por mais tempo nos depósitos de areia, que desde o início do ano amargam queda de até 60% nas vendas. O próprio presidente do Sindicato dos Depósitos, Distribuidores e Comércio de Areia do Rio Grande do Sul (Sindareia-RS), Laercio Thadeu Pereira da Silva, admite: “Houve forte redução de obras particulares e não há mais previsão de obras públicas (que há pouco tempo eram o filão de consumo).” Silva reconhece que atualmente não está faltando areia no mercado gaúcho, “pelo contrário, há mais oferta que demanda”.

Atualmente, pelo menos 100 depósitos vendem areia extraída de rios de todo o Estado, sendo que 40 destas empresas estão em Porto Alegre e cidades do entorno. Praticamente o mesmo número de mineradoras (em torno de 90) se beneficiam da retirada do insumo em águas de municípios do Interior – como Santa Maria, Pelotas e Uruguaiana – e de leitos dos rios Jacuí, Sinos e Caí, na Região Metropolitana. São pelo menos duas centenas de jazidas licenciadas para retirada de areia em praticamente todas as cidades do Rio Grande do Sul, informa o chefe do Departamento de Fiscalização da Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam), Renato João Zucchetti.

A maioria das empresas tem licenciamento, outras concessão de lavra por tempo indeterminado, e no caso do Rio Jacuí, todas as dragas que realizam extração do mineral são monitoradas pela Fepam. Segundo Zucchetti, a proposta é que o mesmo ocorra no Guaíba, a partir do momento em que se implementar o zoneamento ambiental exigido pelo Ministério Público. “O sistema é seguro. Não se pode mexer nem um metro a mais que o permitido, porque o motor tem um sensor que reconhece os pontos proibidos e desliga automaticamente”, promete o técnico.

Ao contrário de outros ambientalistas do Estado, o chefe do Departamento de Fiscalização da Fepam defende a extração de areia como forma de contribuir para o desassoreamento do Lago. Hoje o Guaíba se encontra com muita areia e muito lodo, em decorrência de material que vem das margens dos rios Jacuí e Caí, entre outros. O desgaste do leito do Rio Jacuí é citado como um dos principais motivos para a demanda por retirada do mineral no Guaíba. “Claro que deverá ocorrer somente em pontos onde forem descartados danos ao meio ambiente e à saúde da população”, pondera a titular da Secretaria do Ambiente de Desenvolvimento Sustentável (Sema), Ana Pellini.

Segundo a titular da Sema, o problema do mercado de areia na Região Metropolitana “é grave”. “O Jacuí está mal, e, mesmo que danos ambientais anteriores tenham sido sanados, precisa descansar”, justifica Ana. “Onde mais buscar areia, afinal, se nada se faz sem este insumo na construção?”, indaga, ressaltando que a Fepam ainda não deu a palavra final, e que só o fará com base em informações científicas (referindo-se à avaliação que deve ser feita em cima de uma compilação de estudos já realizados por instituições e empresas gaúchas).

“Acreditamos que exista uma extração muito superior ao que se poderia admitir no Guaíba ou no Jacuí, procurando outras fontes, como trituração de rochas e reaproveitamento de restos da construção civil, que hoje são jogadas em banhados”, rebate o professor do Instituto de Biociências da Ufrgs e membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente (por meio do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, onde é coordenador), Paulo Brack. Ele aponta para a quantidade elevada de construções demolidas que geram resíduos e que a Prefeitura tem dificuldade de recolher.

Um exemplo de operação alternativa são as jazidas de areia em terra próximas aos centros de consumo – como em Viamão e Camaquã. Também é possível encontrar areia em Cidreira, Pinhal, Maquiné, Terra de Areia e Osório, no Litoral Gaúcho. “Mas em alguns casos é areia fina, para ser usada em reboco, entre outras funções”, pondera o presidente do Sindareia-RS. “No entanto, toda a areia que comercializamos vem do Rio Jacuí – só um pouco vem do Rio dos Sinos – então a possibilidade de abertura da extração no Guaíba significa aproximar as jazidas, o que irá gerar economia no deslocamento de caminhões”, argumenta Silva. Ele ressalta que comprar o minério de outros estados, como Santa Catarina, seria “inviável”, pelo custo da logística.

“É a indústria da construção civil jogando o problema como se os areeiros fossem vítimas que vão ficar sem emprego, esta chantagem não podemos aceitar!”, critica pesquisador e Coordenador do Curso de Geologia da Ufrgs, Rualdo Menegat. “Se trata aqui de materiais de insumo para uma poderosa indústria que quer extrair areia do Guaíba sem gastar muito, para nos vender apartamentos a preço de ouro.” Fato é que soluções como o uso de areia de brita, que se equivale a areia natural, existem.

Atualmente há projetos acadêmicos que indicam possibilidade de utilização desta alternativa, mas cuja viabilidade econômica tem sido um impasse para sua utilização comercial. Os custos com a atividade são, sem dúvida, empecilhos para que mineradores desistam de focar na extração de areia do Guaíba, por mais que se acene sobre o leito do Lago ter toda a probabilidade de ser uma “espécie de bomba química”, como define Menegat. Os níveis de contaminação do leito do Guaíba estão sendo inclusive objeto de estudos com técnicas avançadas, que estão em andamento na USP (Universidade de São Paulo).

“Caso não ocorra o licenciamento, vai acarretar na questão do custo do frete, o que irá refletir no preço da areia, da mesma forma que ocorreu quando foi suspensa a extração do Jacuí, em 2013”, explica o gerente administrativo financeiro da Comércio de areia do Guga, Fábio Zimermann. Ainda assim, ele destaca que a maioria dos depósitos pode trabalhar com areia de cava. “Não necessariamente toda areia vem de rio”, reforça. “É preciso buscar outras jazidas no Estado, porque a mineração no Guaíba afetaria, entre outras coisas, a balneabilidade das praias”, alerta Paulo Brack. Ele destaca que já existe um revolvimento natural da areia nas margens, e, em caso de retirada, a realimentação das praias banhadas pelo Guaíba diminuiria drasticamente, afetando a vegetação.

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