Cientistas acham metais pesados na água com lama do Rio Doce

Trecho soterrado de lama do Rio Gualaxo do Norte. Note o tamanho do caminhão no centro da foto: tsunami de lama destruiu 1.500 hectares de margens de rios, segundo o Ibama. Foto: Dante Pavan/GIAIA
Trecho soterrado de lama do Rio Gualaxo do Norte. Note o tamanho do caminhão no centro da foto: tsunami de lama destruiu 1.500 hectares de margens de rios, segundo o Ibama. Foto: Dante Pavan/GIAIA

O grupo independente de pesquisadores que está avaliando os impactos ambientais do desastre de Mariana (MG) divulgou ontem os primeiros resultados das análises de amostras de água e sedimento contaminados pela lama que vazou da barragem da mineradora Samarco, em 5 de novembro. Foram encontrados níveis elevados de arsênio e manganês em várias das amostras. A contaminação, porém, também foi encontrada em áreas acima do ponto atingido pelo vazamento, o que deixa dúvidas com relação à origem dos metais — se eles faziam parte da lama ou já estavam presentes no ambiente antes do rompimento da barragem.

Foram analisadas amostras de dez pontos ao longo dos três principais cursos d’água atingidos pela lama: Rio Gualaxo do Norte, Rio do Carmo e Rio Doce; coletadas entre os dias 4 e 8 de dezembro, até Governador Valadares (MG). As análises foram realizadas no laboratório da toxicologista Vivian da Silva Santos, da Universidade de Brasília em Ceilândia, que participa do Grupo Independente de Análise de Impacto Ambiental (Giaia), uma rede de cientistas que se formou via redes sociais para responder ao desastre. (leia entrevista com ela abaixo)

Nesse primeiro momento, foram medidas as concentrações de dez metais: alumínio dissolvido, ferro dissolvido, arsênio, manganês, selênio, cádmio, chumbo, lítio, níquel e zinco. Veja o relatório completo aqui: http://goo.gl/63V3Ii

Tanto o arsênio quanto o manganês já estavam presentes em concentrações acima do permitido pela lei (Resolução Conama 357) à montante (rio acima) do trecho atingido pela lama no Rio Gualaxo do Norte. No caso do arsênio, essas concentrações aumentam progressivamente no trecho impactado até o município de Barra Longa; depois disso o elemento “desaparece” das amostras (deixa de ser detectado) até Governador Valadares, onde volta a aparecer acima do permitido. Já o manganês aparece acima do limite em praticamente todas as amostras, com exceção de uma: a de um afluente do Rio Doce, que não foi atingido pela lama.

Leia também: Lama expõe histórico de degradação ambiental no Rio Doce

Em duas amostras também foram encontradas concentrações de chumbo levemente acima do permitido: em um ponto do Rio Gualaxo do Norte (na cidade de Paracatu de Baixo) e no ponto de encontro dele com o Rio do Carmo, na cidade de Rio Doce. Em todas as outras amostras, as concentrações de metais estavam dentro do permitido pela Resolução Conama. Também foram detectadas concentrações elevadas de ferro total e alumínio total na água, mas não há um padrão de segurança estabelecido pela legislação para esses componentes.

Capa do Relatório 1.

DADOS OFICIAIS

Outras análises químicas e biológicas estão em andamento agora. “Vamos analisar outros pontos de coleta entre Governador Valadares e a foz do Rio Doce”, disse Vivian ao Estado. “Também enviamos essas mesmas amostras para outros laboratórios, que usam técnicas diferentes, para também quantificar metais, e todos os resultados serão disponibilizados no relatório final. Acreditamos que análises em vários laboratórios, com técnicas diferentes, possam fortalecer nosso laudo.”

Análises realizadas pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e pela Agência Nacional de Águas (ANA) indicam que “não há metais tóxicos dissolvidos na água do Rio Doce”. Dois relatórios detalhados foram publicados no dia 15: um sobre o deslocamento da onda de lama gerada pelo rompimento da barragem e outro, sobre o monitoramento da qualidade da água nos rios por onde essa onda passou. Os documentos na íntegra estão disponíveis aqui: Relatório1_ANA-CPRM e Relatório2_ANA-CPRM.*

Leia também: Lama que atingiu o Rio Doce não é tóxica, diz relatório

As empresas responsáveis pela barragem, Vale e BHP (donas da Samarco), negam que a lama seja tóxica. A BHP publicou o seguinte posicionamento, em 26 de novembro: “Os rejeitos que entraram no Rio Doce são compostos de materiais de argila e lodo, provindos da lavagem e processamento de terra contendo minério de ferro, que é naturalmente abundante na região. Com base em dados disponíveis, os rejeitos são considerados quimicamente estáveis. Eles não irão alterar a composição química na água e permanecerão no ambiente como solos normais na bacia hidrográfica.”

(*Parágrafo atualizado, após a divulgação do relatório.)

Imagens do Google Earth, divulgadas pela Fundação SOS Mata Atlântica mostram o distrito de Bento Rodrigues antes e depois do rompimento da barragem. Segundo a ONG, 1.775 hectares foram impactados pelo desastre. Em verde escuro, remanescentes florestais; em verde claro, vegetação natural. Fonte: https://goo.gl/WTBmTK

 

ENTREVISTA  :  Vivian da Silva Santos, pesquisadora da Universidade de Brasília, responsável pelas análises

O que esses resultados nos permitem dizer sobre a toxicidade da lama que vazou da barragem da Samarco em Mariana? Pode-se afirmar que os sedimentos contém níveis elevados de arsênio, manganês e chumbo; ou é possível que esses contaminantes já estavam presentes no ambiente antes do rompimento da barragem?

Com base nestes estudos iniciais o que eu entendo é que a região já era bastante impactada pela atividade mineradora e pela própria constituição geológica da região; porém a contaminação foi drasticamente aumentada após o ocorrido. Não podemos deixar de notar que os valores absolutos de concentração de alguns metais na água estão mais elevados nos pontos de coleta onde o rio recebeu a lama da Samarco. Dos dez pontos disponibilizados nesse primeiro relatório preliminar, apenas dois não receberam a lama da Samarco, e de fato a concentração de metais nesses dois pontos foi bem menor.

Durante a expedição que fizemos entre os dias 4 e 8 de dezembro, observei que na região de Bento Rodrigues, por exemplo, a estrada que dá acesso a este distrito é recoberta com resíduos de mineração para melhorar a acessibilidade e diminuir a lama em períodos de chuva. Tanto que o chão na região “brilha”. E provavelmente em períodos de chuva isso pode escorrer e atingir afluentes do Rio Doce. Com relação ao sedimento, visualmente durante as coletas foi possível observar uma quantidade muito grande de material de mineração (provavelmente metal inerte) nos sedimentos. Entretanto, com relação aos metais, esta análise ainda não foi realizada e ainda não podemos concluir muita coisa.

No que diz respeito aos níveis elevados de arsênio, manganês e chumbo detectados nas amostras: Qual o risco que isso representa para a saúde humana?

Estes três elementos químicos podem impactar a saúde humana principalmente em longo prazo nos níveis encontrados. Arsênio esta relacionado com aumento de incidência de câncer e problemas de pele em populações expostas. Manganês e chumbo podem trazer prejuízos intelectuais e doenças neurodegenerativas. Acredito que com os níveis que encontramos nestas primeiras análises, a toxicidade crônica com estes e outros efeitos seja mais preocupante. E com certeza, merece a atenção de pesquisadores e profissionais da saúde locais, pois tais sintomas são lentamente progressivos e irreversíveis.

E no que diz respeito aos níveis elevados de ferro total e alumínio total: Qual o risco que isso representa para a saúde humana?

Bom, tende-se a considerar que metais como ferro e alumínio, que não se dissolvem facilmente ,são metais inertes. Além disso, eles são mais fáceis de serem removidos da água, como no caso da cidade de Governador Valadares, que recebe água captada diretamente do Rio Doce: neste caso, tratamentos convencionais são hábeis em remover estes metais da água e torná-la potável. Entretanto, esses metais não dissolvidos com o tempo vão se sedimentar no fundo do rio e variações climáticas como chuva em excesso, chuva ácida, seca prolongada ou derrame de outros poluentes no rio poderão “dissolver” este material e fazer com que volte a contaminar o corpo d’agua. E por isso o monitoramento da concentração de metais dissolvidos nesta bacia hidrográfica deve ser muito mais rigoroso de agora em diante.

Análises realizadas pela ANA e CPRM em datas anteriores não detectaram níveis acima do permitido de nenhum desses metais. Pode-se dizer que esses resultados são conflitantes com os do GIAIA? Ou é possível, tecnicamente, que amostras coletadas em locais e datas diferentes apresentem resultados diferentes dessa forma?

Sim, coletas diferentes em datas diferentes podem impactar os resultados, por isso o monitoramento deve ser periódico. Mas lembro que algumas análises divulgadas dias após o acidente relataram que manganês estava elevado, e de fato esse elemento está bastante elevado à jusante do derrame segundo nossas análises.

O que acho complicado é que, na mídia, pessoas sem nenhum conhecimento sobre toxicologia de metais tentaram minimizar a importância desta contaminação. Manganês pode ser tóxico sim, e se está acima do recomendado pela legislação providências devem ser tomadas urgentemente. Os demais, arsênio e chumbo, não mantiveram um padrão à jusante do acidente, o que não nos permite cogitar com clareza se a lama foi responsável por esta contaminação ou se esta contaminação já existia. Neste caso, a análise do sedimento nos permitirá conclusões melhores.

 

Fonte: http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/cientistas-acham-metais-pesados-na-agua-com-lama-do-rio-doce/

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