Ativistas cobram zoneamento total do Guaíba

Análise inicial apontou que seria possível retirar areia de 30% do lago, mediante outras pesquisas complementares

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Polêmica entre ambientalistas, a questão da extração de areia no Guaíba tem rendido novas discussões nos últimos meses – tudo porque, em 2015, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) aventou a possibilidade de retomar a mineração no lago. Mesmo com a reação contrária imediata por parte de ativistas, o órgão estadual promoveu um estudo de viabilidade, apresentado em maio, para apontar em que locais é possível realizar a extração sem riscos ambientais. O movimento Viva Guaíba, no entanto, considera insuficiente, e demanda um zoneamento econômico-ecológico completo antes que a exploração ocorra. “Defendemos que se cumpra a lei, que determina que a mineração de areia só pode ser feita no Guaíba se houver um zoneamento completo. O estudo começou a ser realizado, mas a presidente da Fepam quer acelerar o processo fazendo um estudo só sobre a extração da areia. Isso é perigoso”, ressalta Luciene Schuch, organizadora do Viva Guaíba. A ambientalista desconfia do próprio estudo apresentado, por ter sido baseado na coleta de dados fornecidos pelas próprias mineradoras interessadas.

O estudo inicial apontou que em 30% do Guaíba seria possível extrair areia, mediante outras pesquisas complementares. “Continuamos batendo o pé: não aceitamos estudos que não sejam
o zoneamento ambiental completo e, depois, a análise do leito. Diante da crise, a quantidade de obras diminuiu. Então, não há nem motivo para tanta pressa para a mineração”, pontua Luciene. A areia é usada principalmente para a fabricação de cimento. A preocupação principal referente à exploração é que, com ela, metais pesados presentes no lago levantem e parem na água que vai para as residências, causando problemas de saúde. “Metais como cromo, mercúrio e ferro não são absorvidos pelo corpo humano. Podem não afetar em um dia, mas e se o cidadão passar 50 anos tomando água com essas substâncias?”, questiona a ativista.

O estudo foi apresentado no final de maio ao Comitê do Lago, que controla e monitora todas as atividades no Guaíba. Os conselheiros estão analisando o trabalho e, em julho, devem reprovar, aprovar ou aprovar com ressalvas. “Esperamos que eles façam sugestões, para que melhoremos o estudo. Se fizerem, haverá mais um prazo. Depois de concluído no comitê, será submetido ao Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) e precisará ser aprovado lá também”, explica a presidente da Fepam, Ana Pellini. Ana assegura que nem se cogita licenciar extração de areia sem a finalização do estudo. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) comprou um ecobatímetro (equipamento de sondagem), que fotografará todo o fundo do Guaíba. “É como um escâner. Isso nos dará segurança, pois, se for possível extrair areia para mineração, teremos um monitoramento perfeito”, destaca. O resultado da sondagem constará como anexo do zoneamento. O ecobatímetro custou  R$ 1,1 milhão.

Consciência ambiental aumentou, mas não há vitórias expressivas, afirma Agapan

Morando na cidade ou no meio rural, não é preciso ir muito longe para perceber o impacto ambiental causado pelo ser humano. A boa notícia é que a consciência ambiental, segundo a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), tem aumentado entre a população. A má é que, nos 45 anos de existência da entidade, as lutas permanecem as mesmas – contra depredações motivadas por ganância e protegidas por interesses econômicos e políticos – e não houve vitórias expressivas.

Entre as preocupações da Agapan, conforme o presidente da entidade, Leonardo Melgarejo, estão questões urbanas, como a redução da arborização nas cidades, a circulação viária e a poluição sonora. Fora do espaço urbano, há a expansão desenfreada de monoculturas, a expansão do eucalipto na região da Campanha, as vantagens oferecidas para o uso indiscriminado de agrotóxicos. Melagarejo também cita a fábrica de celulose à beira do lago Guaíba, no município homônimo. “Essa é uma das lutas mais antigas da associação, que atualmente ainda se mantém”, destaca.

O ativista ambiental ressalta o fato de o Rio Grande do Sul ser um dos estados com maior consumo de agrotóxicos em todo o Brasil. Além dos produtos serem danosos para a saúde, causam impacto para as águas subterrâneas e a própria bacia do Guaíba. “São lutas de respeito às futuras gerações e contra a depredação motivada por ganância e protegida por interesses econômicos e políticos associados no presente”, observa.

As tentativas de alterar a legislação ambiental nos níveis estadual e federal também preocupam. Entre elas, o presidente da entidade cita o projeto de lei para retirar o símbolo que indica os produtos transgênicos, do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), e a proposta de alteração da Lei dos Agrotóxicos, de autoria do deputado federal Covatti Filho (PP-RS).

Covatti quer, por exemplo, que os venenos agrícolas passem a ser chamados de defensivos agrícolas. “É uma forma de iludir a população e minimizar as restrições de uso. Além disso, o parlamentar pretende criar uma instância de avaliação expedita desses produtos, para que as decisões sejam rápidas. O problema é que isso compromete os estudos a longo prazo necessários”, aponta.

Por outro lado, a conscientização da população tem crescido. “Hoje, a população sabe que boa parte dos produtos comercializados com grandes campanhas de marketing precisam dessas campanhas porque escondem problemas”, enfatiza Melgarejo.

Produtos já descartados anteriormente, como frutas transgênicas, agora têm sido colocadas no mercado com a utilização do herbicida 2,4-D, extremamente tóxico e proibido em diversos países. “Isso vem gerando reação muito grande da população em vários estados do País. Há uma campanha permanente contra os agrotóxicos, as pessoas estão atentas aos riscos”, opina o presidente da Agapan.

O deputado estadual Edegar Pretto (PT) tem dois projetos de lei nesse sentido – um proíbe a pulverização aérea em lavouras e outro proíbe a fabricação, a comercialização e o uso de produtos que contenham em sua fórmula a substância 2,4-D do Estado.

Presidente da Associação Ecológica de Canela (Assecan), Cilon Estivalet atua principalmente na região da Serra, defendendo a paisagem natural do local. Atualmente, a principal briga é para reabrir um parque urbano de nove hectares administrado pela prefeitura municipal, fechado há um ano. “Fechou por vontade política. Eles querem privatizar a área e transferir para a iniciativa privada construir um centro de eventos e outros prédios comerciais. É o sinal dos tempos. Hoje em dia, a sociedade é muito ameaçada, como também está a natureza”, lamenta.

A ameaça decorre da busca das pessoas por resultados imediatos, como retornos financeiros aos investimentos. “Ninguém pensa nas futuras gerações, parece até que não teremos um futuro. Essa é a angústia de quem milita no movimento ambientalista, que nunca se voltou para questões imediatas”, observa Estivalet.

Fonte: Jornal do Comércio: Isabella Sander isabella@jornaldocomercio.com.br

 

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