A situação da água potável no Brasil e no mundo

“Você nunca saberá que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada, não existirão resultados.” (Mahatma Gandhi)

I

Equivocadamente o nosso planeta chama-se Terra, deveria ter o nome de Água, Planeta Água! Dois terços da superfície do nosso planeta estão cobertos por oceanos e imensas geleiras recobrem as regiões polares.

O volume total de água do nosso planeta é de aproximadamente 1,35 milhões de quilômetros cúbicos!

Infelizmente, uma ínfima parte desse colossal volume de água é potável e está disponível para o consumo da Humanidade, pois somente 2,5% da água é doce, e a maior parte dela está congelada. Sobram irrisórios 0,003% deste recurso mundial para a utilização pelo homem.

Para compreender o que representam 0,003%, é como se toda água potável coubesse num copo para água, mas o que está disponível para consumo preenchesse apenas uma colher de café!

II

A água potável é fundamental para o bem estar de todos os seres vivos e manutenção dos ecossistemas.

Nosso planeta é um sistema fechado e a mesma quantidade de água é reciclada há bilhões de anos, porém o consumo de água potável aumenta ano a ano devido aos impactos ambientais causados pela superpopulação, atividades agrícolas e industriais e, principalmente, pelo mau uso dos recursos hídricos.

Os recursos hídricos potáveis são limitados e sua distribuição geográfica no planeta é irregular e desigual, causando problemas geopolíticos graves. Certamente as guerras que ocorrerão no século XXI serão pelo domínio da água potável contrapondo-se às guerras que ocorrem em nome do petróleo.

O consumo de água superficial se distribui em 10% para consumo humano, 30% pelas indústrias e 70% dela é utilizada na agricultura. Ressaltando que a maior parte da produção de grãos é utilizada para alimentar os rebanhos bovinos e suínos, ao invés de matar a fome da Humanidade e que mais de um bilhão de pessoas não tem acesso a água potável!

O algodão, arroz e o café são os produtos que mais consomem os recursos hídricos.

15.000 litros de água são utilizados para se produzir 1 kg de carne enquanto são necessários somente 1.300 litros para se produzir a mesma quantidade de grãos. Na fabricação de um carro são utilizados 45 mil litros dos recursos hídricos.

III

Estudos realizados pela Organização das Nações Unidas (ONU), concluíram que a qualidade da água piora cada vez mais devido ao acúmulo de lixo sem tratamento adequado e que ocorreu mudança no ciclo hidrológico devido à construção sem planejamento do espaço urbano e em áreas de mananciais.

Cidades amorfas sofrem com as enchentes e elas potencializam o problema causado pelos resíduos decorrentes das atividades humanas: o consumismo desenfreado, não reaproveitar sobras orgânicas, colocar o lixo muito tempo antes da coleta; não colaborar com a reciclagem; asfaltar e construir nas várzeas dos rios. Estima-se que por dia as reservas de água potável sofrem o impacto de duas toneladas de lixo procedentes das atividades industriais, agrícolas e de origem humana.

Por muito tempo pensou-se que os mares e rios eram imensos e inesgotáveis biodigestores, isto estava parcialmente correto quando a população não chegava a um milhão de pessoas e nem tinham sido inventados os derivados do petróleo e os inúmeros polímeros plásticos que não são biodegradáveis e causam severo impacto nos ecossistemas aquáticos matando peixes e envenenando a teia alimentar.

O estudo denominado Água Doente que foi elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em Nairóbi, no Quênia (2010), concluiu que o uso de água poluída mata mais do que qualquer forma de violência, incluindo as guerras.

Um bilhão de pessoas em todo o mundo não têm água potável e cerca de 2,6 bilhões – quase um terço da população mundial – não dispõem de água suficiente para o saneamento básico!

Marrocos, Índia, Jordânia, Sudão, Níger, Burquina Faso, Burundi, República Centro-Africana e Ruanda são os países com a pior qualidade de água.

Kuait, Faixa de Gaza, Emirados Árabes Unidos, Bahamas, Qatar, Maldivas, Líbia, Arábia Saudita, Malta e Cingapura sofre com a escassez de recursos hídricos.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirma que 1,5 milhão de crianças morrem anualmente com doenças causadas pela ingestão de água suja. Estas são as principais doenças causadas pela ingestão de água contaminada: cólera, hepatites, leptospirose, diarreia infecciosa, esquistomossomose etc.

Esta desgraça que ceifa a vida das crianças matando o futuro da Humanidade agrava-se exponencialmente nas regiões em crise bélica ou afetadas por catástrofes, como é o caso do Haiti.

IV

Expandindo-se pelos territórios do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, está o Aquífero Guarani. Ele possui a capacidade de abastecer 400 milhões de pessoas por ano, produzindo 50 quatrilhões de litros de água! E pela conquista dele é que as futuras gerações guerrearam e isto está bem próximo de acontecer.

É preciso estar atento às mudanças do mapa do poder que agora serão regidos pelos desafios ambientais.

No Brasil o potencial de recursos hídricos é de 53% da reserva da América do Sul, mas a média de desperdício de água é de 46%!

Estudos realizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontaram que mais de 15 mil pessoas morrem anualmente no Brasil de diarréia.

Países que investem em saneamento básico e educação ambiental como Áustria, Itália e Dinamarca, apenas 0,1% das mortes são decorrentes da ingestão de água contaminada.

As análises hídricas realizadas em 12 estados e no Distrito Federal pela ONG SOS Mata Atlântica no ano de 2010, com base em parâmetros definidos pelo Ministério do Meio Ambiente, revelou que em 70% das coletas feitas em rios, córregos, lagos e outros corpos hídricos, a qualidade da água foi considerada regular, 25%, a qualidade era ruim e em 5%, péssima.

A poluição dos recursos hídricos brasileiros é causada principalmente pela falta de saneamento básico e total descaso com lixo hospitalar e com o necrochorume.

O necrochorume é decorrente do processo de decomposição de todo ser vivo, gerando uma substância viscosa, composta por 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas, duas delas bem tóxicas, a putrescina e cadaverina, que com chuva atinge o lençol freático contaminando-o.

90% das necrópoles brasileiras são irregulares e contaminam o solo e o lençol freático porque o sepultamento ocorreu terrenos inadequados e não se respeitou Legislação Ambiental que determina que o limite entre a cova e o lençol freático não pode ser menos de 2 metros.

Dados da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente apontam que 63% dos depósitos de lixo no Brasil estão em rios, lagos e restingas. Também os agrotóxicos, o mercúrio dos garimpos e lixo bruto são jogados nos rios e isto ocorre principalmente na região norte onde localiza-se a maior reserva de água doce do país – a bacia fluvial do Amazonas.

A cada real investido em saneamento básico, são economizados R$ 4,30 na Saúde, portanto faltam a velha e conhecida vontade política e mobilização social para resolver esta calamidade pública que ceifa a vida de milhares de crianças.

V

Dois terços da população do mundo enfrentarão severa escassez de água em 20 anos, conforme previsão FAO – agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação. Esta previsão articula-se com a constatação de que o consumo de água dobrou em relação ao crescimento populacional do século XX.

Para reverter a calamitosa situação da água potável é preciso aceitar definitivamente que os recursos hídricos são finitos; promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino; rever os hábitos de consumo; investir prioritariamente em saneamento básico e re-humanizar a humanidade, promovendo a alteridade e solidariedade entre os povos, sem esta mudança de comportamento as guerras para se obter o domínio da água potável serão infinitas e de uma barbárie bem pior que os conflitos anteriores, onde o valor vida poderá desaparecer.

É possível viver sem petróleo e seus derivados, mas impossível viver sem água potável.

Para Saber Mais

Livro

Pascarelli, Nelson Filho. Educando para Preservação da Vida. Rio de Janeiro: WAK, 2011.

Filmes

Uso Racional da Água: Super H2O. Hermon Reis Silva. Brasil. 2009.

Koyaanisqatsi, Vida em Desequilíbrio. Godfrey Reggio. EUA. 1993.

2001, uma Odisseia no Espaço. Kubrick. EUA. 1968

 

Fonte: http://pascarellipalestrante.jusbrasil.com.br/artigos/161798960/a-situacao-da-agua-potavel-no-brasil-e-no-mundo

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